sábado, 23 de janeiro de 2010

Por trás das pirâmides, lixo

Por trás das pirâmides, lixo 20/11/2009 12:25:24


Marta Reis

A menos de vinte minutos das pirâmides de Gizé, principal ponto turístico do Egito, está um lugar que não figura entre os cartões-postais. A Cidade do Lixo é como um canto escondido da capital, Cairo, um tanto por suas imagens chocantes e seus odores repugnantes, mas também por ser a casa da minoria cristã do país. Cerca de 30 mil habitantes vivem praticamente isolados, a coletar e transformar lixo em mercadoria. São os zabbalin, o povo que faz do lixo a sua própria identidade.
“Sou muito feliz e não penso em sair daqui. Esta é a minha vida: encontrar frutas e alimentos em bom estado nestes restos orgânicos”, explica uma das moradoras do bairro, enquanto enfia os braços num saco preto, já tomado por moscas.

O cheiro é de revirar o estômago, mas a mulher manuseia o saco com naturalidade. Os zabbalin parecem nem se importar com as montanhas de dejetos que invadem suas casas. Tudo que é descartado pela população do Cairo vai para a Cidade do Lixo e por vezes até vira brinquedo para as crianças ou objeto de decoração no lar dos zabbalin.
A cidade está localizada na base da montanha Mokattam, que significa “montanha partida”. Segundo uma lenda local, foi palco de um milagre no século X. Naquela época, os cristãos foram desafiados a provar o poder de sua religião. Caso contrário, seriam expulsos do país ou mortos. O desafio: mover a montanha ao fim de três dias apenas com a força da fé.

Centenas de bispos e arcebispos se aglomeraram ao pé da montanha para rezar, mas, diz a lenda, foi um sapateiro chamado Simão quem operou o milagre. A Mokattam se abriu e foi possível ver o sol do outro lado. Depois disso, muitos muçulmanos teriam se convertido ao cristianismo.
Para celebrar o milagre, os cristãos construíram no interior da montanha a Igreja de São Simão, com o formato semelhante ao de uma caverna. As paredes de pedra ganharam ilustrações que detalham o feito do sapateiro. A igreja é bonita e limpa, bem diferente do bairro que dorme aos seus pés.
Os zabbalin, cristãos, estão quase sempre em pé de guerra com o governo egípcio. Em abril deste ano, centenas deles se confrontaram com a polícia após o presidente Hosni Mubarak ter ordenado o sacrifício de todos os porcos do país (cerca de 350 mil) com a justificativa de evitar a disseminação da gripe suína. A Organização Mundial da Saúde afirmou que os animais não transmitem a doença, mas o Egito não interrompeu a matança, mesmo sob protestos internos e externos. O jornal egípcio Al-Masri Al-Youm contou que os funcionários do governo usavam uma pá para jogar os animais vivos em grandes caminhões de lixo, depois os esfaqueavam e os empilhavam.
A polêmica cresceu porque a carne de porco é proibida na dieta dos mulçumanos, cerca de 90% da população egípcia. Por isso, a medida foi encarada como uma provocação aos cristãos. Os porcos tinham papel importante na Cidade do Lixo: comiam os restos orgânicos recolhidos pela comunidade. Sem eles, os zabbalin não conseguem eliminar todo o lixo orgânico.
O governo disse ter agido não apenas no combate à gripe suína, mas para levar mais higiene à região. Há muito os moradores esperam, em vão, melhorias neste quesito. Em outras ocasiões, companhias particulares foram contratadas para fazer a limpeza no Cairo. Mas nunca deram conta do montante produzido pelos quase 8 milhões de habitantes da maior cidade do país e pouco mudou para os zabbalin, que permaneceram como principais coletores.
“O governo diz querer limpar a Cidade do Lixo, mas não entende as consequências na vida desses catadores. Acabar com o lugar trará problemas econômicos e sociais para o Cairo”, afirma Syada Greiss, diretora da Associação de Proteção do Meio Ambiente, organização não-governamental que realiza oficinas de reciclagem no local.

Os zabbalin são responsáveis pela coleta de quase 60% do lixo da cidade e não recebem nada do governo. A comunidade sobrevive da venda, principalmente, de plástico e papelão para fábricas de reciclagem. Cerca de 90% das 7 toneladas de lixo levadas pelos caminhões diariamente são reaproveitadas. Todos participam do processo, de crianças a idosos. Normalmente, os homens fazem a coleta e as mulheres cuidam da seleção. Na maioria das famílias, apenas o filho mais velho frequenta a escola. O sistema é o mesmo desde o fim da década de 40, quando camponeses migraram para o Cairo à procura de trabalho e passaram a catar lixo.
As famílias que não sobrevivem dessa atividade são exceção. Marian Rifaat e seus quatros filhos fazem parte dessa minoria. Ela é dona de uma venda de frutas e faz questão de que seus filhos frequentem a escola. “Não trabalho com lixo, não gosto. Quero uma vida melhor para os meninos. Mesmo assim, não penso em me mudar, estou aqui há 30 anos, pertenço a este lugar.”

Separada dos centros mais movimentados do Cairo pela montanha Mokattam, a população da Cidade do Lixo parece mesmo viver uma realidade à parte. Animais dividem espaço com as pessoas nas ruas estreitas, mulheres e crianças andam descalças e maltrapilhas, mas ninguém parece se importar. A maioria não gosta de ser fotografada ou de dar entrevista. Preferem permanecer quase invisíveis, independentes de um governo no qual não confiam, e isolados de uma cidade da qual não se sentem parte.

Fonte Revista Carta Capital

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